Manaus sem a Borracha

A partir de 1910, em razão das sucessivas quedas do preço da borracha e do aumento da produção da Malásia e Indonésia, a cidade e a região entraram em declínio. Em 1913, existiam, somente no centro de Manaus, mais de 25.000 casas abandonadas, o que representaria umas 20 mil pessoas a menos. Abate-se sobre a parcela despossuída da população, por falta de recursos e de gêneros alimentícios, uma pandemia de gripe espanhola que, entre setembro de 1918 e janeiro de 1919, matou cerca de 6 mil pessoas no município, mais de 2 mil só no Centro da cidade.
Em 1920, a população chega aos 70 mil habitantes; em 1940, recua para 66 mil e só volta a crescer a partir de 1950. Nesse intervalo de trinta anos, o preço da borracha caiu a valores vis e a produção só não foi completamente abandonada porque a produção foi carreada para o abastecimento das indústrias de pneumáticos implantadas em São Paulo.
Com o advento da Segunda Guerra Mundial e o bloqueio dos seringais asiáticos, inicia-se um período de grande euforia – que ficou conhecido como “Batalha da Borracha” – motivado pela possibilidade de retorno aos grandes lucros da época áurea de exploração do látex. No entanto isso pouco contribuiu para uma eventual superação da inércia econômica da região e de Manaus.
Com o fim da guerra, e o conseqüente definhamento da atividade gomífera catalisada pelo conflito, as populações das cidades do interior e, posteriormente, dos seringais, órfãs da sanha predatória do capitalismo extrativista, migraram para Manaus colapsando a restrita infra-estrutura da cidade, inchando o já enorme contingente dos indigentes amontoados em casebres de palha, palafitas e flutuantes nos igarapés do centro da cidade e dos novos bairros – Imboca/Santa Luzia, Morro da Liberdade, Raiz, Crespo, São Lázaro, Betânia, São Francisco e Petrópolis, a leste; Santo Antônio, Glória e Compensa, a oeste; Matinha, São Geraldo, Chapada, São Jorge, Beco do Macedo e Vila Amazônia, a norte; e a cidade flutuante, no centro (sul), verdadeiro monumento à história de uma cidade contada em ciclos de expropriação dos recursos naturais de seu chão e do aniquilamento da subjetividade cultural de seus homens. Os rejeitos da gananciosa exploração do látex e do homem vieram, na forma de restos desumanizados, dar às portas de Manaus, coalhando as águas do rio Negro de miséria e vergonha.

Nos anos cinqüenta do século passado, o Governo Federal inicia a chamada política de integração da Amazônia, que se torna mais contundente a partir dos anos sessenta com a implantação dos projetos de “desenvolvimento regional”, visando à ocupação da região e sua integração ao restante do Brasil. Na esteira desse integracionismo, Manaus, sob a euforia desmedida da elite governante local, abre espaço para a Zona Franca que planta seu ícone mais expressivo – o Distrito Industrial – na paisagem urbana de Manaus, compondo a face mais aparente de uma política que empurrou a cultura amazonense para um salto abismal: do marasmo que antecedeu a zona de livre comércio “para o arrivismo e o mercenarismo promovidos por um progresso sem alma, sem ética e sem estética, e exclusivamente fundado em bases mercadológicasOs projetos para a Amazônia fundavam-se em pelo menos dois grandes eixos de interesses: primeiro, o governo empenhava-se por todos os meios em concretizar e sedimentar o seu projeto geopolítico, visando a um maior controle e ao reforço dos laços da região com o conjunto do país; segundo, o projeto desenvolvimentista em curso deveria culminar com a abertura da Amazônia ao capital nacional e estrangeiro. A defesa de tais eixos, porém, vinha travestida num discurso que apregoava a criação de alternativas econômicas viáveis e compatíveis com o modo de vida, as potencialidades e as peculiaridades do lugar.
O aeroporto internacional foi construído e a cidade recebeu ainda melhorias na infra-estrutura viária, no fornecimento de água e na ampliação da base energética instalada. Em meados de 1975, segundo dados revelados no trabalho de Miguel Rabelo Ribeiro (1998), a Zona Franca de Manaus recebeu investimentos num total de 140 projetos industriais aprovados pela Suframa, o que impulsionou a expansão da atividade comercial com base nos produtos importados e provocou impactos significativos para o Estado do Amazonas e a sua capital. O crescimento da população de Manaus atingiu taxas anuais superiores a 5%, passando de 154.040 habitantes residentes em seu perímetro urbano, em 1960, para 284.118 habitantes, em 1970. Em 1980, registrava mais de 600 mil habitantes e, após trinta anos de instalação da Zona Franca, atingiu mais de 1 milhão de habitantes.

Atraídos pelo eldorado baré pós-moderno, os imigrantes que acorreram à próspera capital do Amazonas, encantados pela promessa de emprego e vida feliz na Zona Franca de Manaus, encontraram uma cidade loteada pelas poderosas oligarquias locais e, sem alternativa, ocuparam vertiginosamente as áreas que margeiam os igarapés, destituídas de valor econômico.
A infra-estrutura urbana herdada do ciclo da monocultura do látex não se ampliara de forma significativa para suportar as nuvens de encegueirados pelas luzes do progresso e pelo paraíso do emprego. O colapso foi inevitável. Hoje, somente às margens dos igarapés do centro da cidade, amontoa-se uma população igual a que Manaus possuía na década de setenta, quando da instauração da Zona Franca.

Manaus foi repentinamente sacudida do marasmo balizado pelo tempo do mormaço para ser inserida, pela força de interesses externos, num sistema governado por um tempo medido pela lógica do lucro a qualquer custo.
É corriqueiro ouvir dizer que a cidade de Manaus foi construída praticamente sobre as águas. Tomando as águas por igarapés e tomando os igarapés por traço cultural do amazonense, é possível reestruturar essa afirmação costumeira para atribuir-lhe um novo sentido, que nos parece conclusivo: Manaus foi construída pela desconstrução cultural da história e da memória de sua gente.

2 respostas para Manaus sem a Borracha

  1. Marçal Gomes disse:

    Parabéns pelo artigo, muito bom. O que faço a partir de agora é apenas considerações. Não é possível hoje acreditar facilmente que foram as plantações de siringueiras da Malásia e Indonésia a causa do colápso da produção do látex amazonico, mas a ambição desmedida dos paulistas que por quase uma década assediaram o capital financeiro presente em Manaus e trazido principalmente pelo Sir Charles Booth, o que planejou o cais. Com a eclosão da I Guerra veio o golpe. o Presidente da república(política Café com Leite) alegando problemas de segurança fechou em 1914 o Rio Amazonas à navegação estrangeira, não saiu mais nada daqui e para complicar a Royal Navy requisitou os narvios mercantes da Booth Line Limited. Não é verdade que havia desilusão antes, nos primeiros anos da segunda década de 1900 havia no Roadway uma multidão(vide fotos da época) de pessoas chegando e indo para a Europa. Sabe onde foram parar os “aviadores” e o capital? Pois é, na Av. Paulista financiando os cafeicultores paulistas….agora com a Internet essas informações já estão disponíveis. Eles, os paulistas, vão fazer a mesma coisa com a ZFM, aguardem!
    Marçal
    Obs: Na segunda Gerra que foi mais perigoso e os alemães tinham mais submarinos o Rio Amazonas não fechou ao contrário passou a exportar borra.

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