Os Igarapés e Eu

Porque nasci na Região Amazônica, a visão de grandes rios foi algo permanente em minha vida. Também a prática de atividades costumeiras motivadas pelas águas: quando criança, um dos programas de lazer realizados com maior freqüência era o “banho de igarapé”, peloqual denunciávamos nossas origens e fortalecíamos os laços identitários.

Muitas são as lembranças de minha família organizando-se para passar o dia – geralmente domingo ou feriado – refrescando-se nas águas limpas e geladas de um dos igarapés localizados nos limites da cidade. Ser manauara era ser de igarapé.

Até a década de setenta, muitos balneários de Manaus ainda resistiam mantendo seus formatos originais – em regra, áreas arborizadas que ladeavam as chamadas piscinas naturais, obtidas à custa do represamento dos igarapés. Alguns desses balneários eram administrados por associações de funcionários públicos e de empregados da iniciativa privada. Mas o maior interesse da população centrava-se nos espaços públicos, aos quais acorria expressivo número de banhistas aos fins de semana. As cachoeiras do Tarumã, nas cercanias da cidade, a Ponte da Bolívia e o balneário do Parque Dez de Novembro, construído num trecho do igarapé do Mindu, eram os lugares mais concorridos, embora fossem muito freqüentados os igarapés do Franco, do Quarenta e do Mestre Chico.
Esses momentos da história dos igarapés – e da gente da cidade – foram perenizados nos álbuns de família e permaneceram orbitando minhas melhores lembranças infantis.

Não sei precisar no tempo o início do ocaso desses balneários, mas certamente está relacionado aos surtos de crescimento da área urbana da cidade, que recrudesceu a partir da década de setenta com o advento da Zona Franca de Manaus. Toda essa vivência em relação aos igarapés ficou em mim sem que eu me desse conta, por muitos anos, das representações e dos valores encerrados por essa ancestralidade.
Marcadamente nas décadas de oitenta e noventa, os igarapés só aparecem como objeto de interesse dos noticiários quando vetores de tragédias. No período das chuvas as águas retomam provisoriamente os espaços que lhes foram suprimidos, alcançando as casas construídas nas áreas naturalmente destinadas ao escoamento, produzindo calamidades e pondo os igarapés na ordem do dia, passando assim, tragicamente, de concorrido modo de lazer a ameaça à segurança das populações marginais e à saúde pública, num curto período histórico de três décadas, em que se revelaram catastróficos os produtos da associação perversa, produzida no imaginário coletivo, entre os igarapés e as calamidades, mercê de uma relação mecânica e horizontal de causa e efeito.

Infelizmente, o legado indígena marcou apenas a nossa tez. A nossa alma foi marcada pelos valores da cultura exógena, fundamentada, entre outras coisas, na idéia de superioridade sobre a natureza que caracterizou e caracteriza a lógica de expansão da cidade de Manaus, determinando a fulminante degradação das áreas florestais urbanas e o aterramento dos igarapés em nome de uma concepção alienígena de progresso e bem estar.

Esses valores antiecológicos assimilados no processo ainda latente de colonização tornaram a realidade manauara bem diferente da idealização de que aqui só tem índio. Manaus é uma cidade encravada na floresta amazônica, mas que desconhece cotidianamente o seu berço. O meio urbano não acolhe o manauara porque não o reconhece. A cidade, de inspiração iluminista, parece comportar-se como célula que rejeita o que não identifica. É uma cidade erguida contra os pobres e pelos conflitos gerados nesse poço de excludência e desigualdade. É incessante a disputa por espaço para morar, caminhar e trabalhar, explicada, em parte, pela velocidade e violência do processo de urbanização que ocorreu em Manaus, que não permitiu uma adaptação gradativa da população às regras da vida urbana.

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13 respostas para Os Igarapés e Eu

  1. Gabriela disse:

    Gostei muito dos textos e imagens do seu blog! Sua visão acerca dos igarapés de Manaus realmente me fascinou! Tentarei falar com esse entusiasmo para os alunos aos quais apresentarei um projeto sobre qualidade da água da bacia do Educandos, mais especificamente o Igarapé do Quarenta.

    • Oi Gabriela
      Desculpe não entra em contato logo. Sou uma apaixonada pelos igarapés. Essa paixão é resultado da minha história com os igarapés. Toda a minha infância eu e minha família vivenciamos bons momentos tomando banho de igarapé.
      Sorte no seu trabalho, um abraço.

    • Oi Gabriela

      Fico satisfeita que tenhas gostado.Estamos matando junto com os igarapés um pouco de nós. Nossos laços com as águas são uterinos (se é que posso utilizar tão termo)

      O igarapé do Educsnos guarda muitas histórias.Fiz entrevistas com idosos no parque do idoso e ouvi muitos relatos das vivências dos mais velhos com os igarapés.

      Um forte abraço

  2. Thyago Luz disse:

    alguém tem o contato de algum biólogo, que possa falar sobre o igarapés de Manaus? e alguém tem imagens do igarapés quando limpos?

  3. Rosi disse:

    Lindo teu relato! Me emocionei muito com tua história. Não sou amazonense, mas sim paraense, e os igarapés fizeram parte de minha juventude, quando tomava banho com minha Bali querida, que era a cachorra de casa. Ainda sinto falta dessa época doce em que pegava araçá e mangaba do pé, e repartia com Bali. Delícia!

  4. Bolota disse:

    moro perto do Igarapé do 40, muitos moradores antigos do Bairro dizem que antes eles lavavam as roupas no Igarapé. Queria saber se é verdade essa historia hehe

  5. Manaus de Antigamente disse:

    lindo seu texto . ass Manaus de Antigamente

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